segunda-feira, 26 de junho de 2017

Conflitos

- Eu preciso falar a sós com vocês. - a voz de Caos soou um pouco mais ríspida do que o comum, não havia nenhum de seus tons irônicos usuais. Seu pedido soou quase como uma ordem aos ouvidos de seus companheiros que acabavam de cruzar as portas e entrar na sala do trono que ele ocupava. 
- Tudo bem - Vênus não pareceu se importar com o tom do aliado - Vamos a biblioteca.
Vênus e Caos caminharam em direção a escada na lateral da sala. Eles se detiveram nos degraus iniciais, ao perceber o silencio e relutância de Alquimista.
- Preciso... preciso passar na minha sala, pegar alguns cristais... minha  manopla esta vazia... - Alquimista remexia nas fivelas de amarrações no seu braço. Ele não conseguia disfarçar que algo lhe incomodava.
- Você não vai precisar deles agora! - decretou Caos, já mais impaciente. - Eu só preciso fazer um comunicado a vocês, e não quero fazer aqui, onde tem tantas pessoas circulando por trás dessas portas. Suspeito das suas reações, então prefiro fazer isso em privado; agora pare de protelar Alquimista, vamos logo. - Caos fez soar cada uma das palavras mais rebuscadas, como uma provocação ao seu aliado, que em vezes anteriores insistira que ele deveria mudar seu vocabulário enquanto estivessem na sala do trono, para impor o respeito e a ordem necessários a todos os que o ouvissem.
Agora, completamente surpreso com a atitude de Caos, Alquimista apenas acenou que eles continuassem, e os seguiu. Ele apertara a fivela de sua braçadeira de couro, que possuía 4 dos 5 espaços, para os cristais, vazios. Eram raras as ocasiões em que ele tinha todas as joias no braço. Mesmo em viagens e missões anteriores, onde situações perigosas se mostraram, alguns espaços vazios permaneceram na manopla que se alongava por todo o seu braço. Seus companheiros, não conheciam totalmente a função de suas pedras preciosas, nem mesmo como aquilo lhe dava algum poder, para eles essa era mais uma de suas características, mas ao mesmo tempo, algo banal, que não merecia a atenção que agora ele parecia dar.
Caos, com passos silenciosos e emanando leves vibrações sombrias, se precipitou a frente dos outros dois, ignorando as perguntas de Vênus enquanto entravam no salão principal da biblioteca, apos a entrada de alquimista, este fechou a porta atras de si, não sem antes averiguar que a sala, com pouca iluminação, estava mesmo vazia.
Vênus, a maga, com um gesto de mão, criou um circulo cheio de símbolos e escrita arroxeadas, no ar, e apos um comando de voz, que soou quase como um sussurro, fez abrir, com um feitiço, as janelas mais altas da sala, permitindo que mais luz entrasse e diminuindo a escuridão no ambiente.
Agora, os três se encontravam diretamente embaixo de um feixe de luz vindo de uma janela. Vênus tinha suas formas e a força de sua presença mais acentuadas, devido ao contraste da luz. Alquimista a sua direita, ainda se mostrava frustrado, mas não deixava de se encantar e admirar a Maga Regente. Caos, ainda sorriu com a provocação da amiga, ao trazer mais luz, o contrario de seu elemento, mas como que atingido por um pensamento súbito, ele voltou ao tom sério e falou enquanto retirava o capuz:
- Eu vou partirei do reino!

Qualquer resquício de bom humor, desaparecera naquele instante, o tom irredutível do Manipulador de Sombras, trouxe aos seus companheiros a seriedade que ele esperava.

 - Como assim ?  - Tentou indagar Vênus - Você precisa ir pra algum lugar? algo aconteceu?
As palavras da maga, surtiram um efeito negativo em Caos, que agora se mostrava mais frustrado ainda com o teor das questões.
 - É claro que preciso ir a algum lugar!  - respondeu secamente.

- E não da pra esperar até que Mentor e Luz retornem? - Alquimista, aderiu um tom sério, mas apaziguador. - Em uma semana ou duas eles estarão de volta, com suprimentos, e poderemos nos organizar, e rever essas questões de partidas...
- Duas semanas Alquimista? - Caos parecia que estava a ponto de explodir enquanto direcionava seu olhar de olhos negros a seus companheiros.

- O que esta acontecendo Caos? Se precisa de algo, peça! Sabe que não vamos negar nada! - Vênus ainda, permanecia alheia a real motivação da frustração do amigo e seu desejo de partida.

- Nós precisamos ficar aqui; precisamos cuidar do Reino. Sei que nosso trabalho não tem sido um dos mais interessantes nos últimos tempos, mas é preciso paciência amigo. - Alquimista tentou tocar o ombro do amigo, que se esquivou rapidamente,
- Não fale de paciência comigo, nem mesmo das coisas que eu PRECISO fazer!

- Seja claro de uma vez Caos, o que esta te incomodando tanto, porque precisa tanto sair daqui? pra onde quer ir? - Vênus foi firme ao indagar finalmente.

- Eu devia saber, na verdade eu sempre soube... - Caos começou a falar em tom zangado, fazendo com que atras de si o ambiente começasse a perder as luzes, e uma sombra densa se formasse. - ... Eu lutei a guerra de vocês, eu fui o pesadelo dos seus inimigos, EU DEI SANGUE, ENERGIA, PODER E VIDA PELA CAUSA DE VOCÊS...  - a sombra densa cobria metade do ambiente, rivalizando agora coma luz que parecia emanar da própria Vênus. - Mas agora Vocês esquecem da minha causa...

De repente toda a sombra e energia se dissiparam, Caos assumiu uma postura mais curvada, e voltou a falar em tom mais brando: - Vocês esqueceram da minha causa, para ficar brincando de Reis...

- Não seja injusto Caos, essa causa aqui, é de todos nós... - Alquimista se precipitou a frente do amigo, e tentou persuadi-lo - Não esquecemos de Deborah nem de... - ele se calou ao receber um olhar de aviso de Caos. O manipulador de sombras não ousava dizer os nomes, e nem queria que ninguém mais os dissesse.

- A Sacerdotisa e a filha... - Vênus sussurrou, e logo se calou, ao entender o motivo de toda a angustia do amigo. Foi como se em um segundo tudo aquilo fizesse o perfeito sentido, ela sentiu a voz embargar na garganta, e se esforçou em falar ao companheiro algumas palavras: - Não esquecemos causa alguma Caos, lutamos juntos uns pelos outros, e também pelo que sonhamos em conjunto. Construímos esse reino onde elas poderão ser felizes, vocês poderão ser felizes... Sua angustia é válida, mas não precisamos nos precipitar, iremos juntos em sua busca, confie em nós.

Caos puxou de volta o capuz sobre a cabeça, enquanto encarava Alquimista a sua frente. e Vênus logo atras dele.
- Eu já disse o que precisava dizer...

- Vamos garoto das sombras - Alquimista tentou provoca-lo de forma amigável - Não seja cabeça dura, eu preciso de um pouco de tempo pra preparar algumas de minhas coisas, mas garanto que quando Mentor voltar, sairemos finalmente para onde você precisar ir.

- Tempo? precisa de mais tempo? - Caos, começava a voltar a ficar fora de si. - Você nunca precisou de mais tempo ou preparações quando pulava em missões estupidas pra tentar impressionar Vênus... Mas tudo bem, se ela estalar os dedos você vai fazer qualquer coisa mesmo. Eu não espero mais a ajuda de vocês... continuem nessa fantasia de Casal...
- Não somos um casal! - Vênus se manifestou irritada, e logo deu as costas aos dois fechando os olhos e se afastando deles.

- Você está só zangado seu maluco estupido. Então eu vou relevar tudo o que você disser... - Alquimista tentou manter o tom calmo, mas algo não parecia correto. Ele falava, respirando pesadamente. Apenas Caos notou seu braço direito tremendo, enquanto ele tentava mexer nas amarras da manopla, forçando-as e aumentando a pressão, tentando parar o tremor em seu braço. - Não importa muito o que você disser...você tem razão...isso tudo... tem levado tempo demais...

Caos se surpreendeu com o estado de Alquimista que subitamente parecia completamente esgotado, e tateava o ar em busca de algo para se apoiar.
 - Vênus... - iniciou Caos, de volta ao estado normal e preocupado com o amigo.
- Não! - Alquimista, conseguiu segurar no braço do amigo, e foi sua vez de o olhar de maneira ameaçadora.

- ...Vênus... me desculpe, eu não pretendia falar tudo isso... - corrigiu-se Caos, enquanto reerguia o amigo, que assumia novamente sua postura no meio da sala.

A Maga regente se aproximava dos dois novamente, abrindo os olhos, mas sem encarar Alquimista.
 - Ele tem razão, você só está muito zangado Caos, como eu já estive; e muito angustiado como todos nós já estivemos. Sim, já devíamos ter planejado o resgate da Sacerdotisa ha muito mais tempo.  - Vênus, impôs um tom de voz que se mesclava e alternava entre a altivez que exercia com seu poder e a calma que trazia de sua personalidade - O tempo que nos ofertou pacientemente meu amigo, não será desperdiçado. Contatarei Mentor e Luz, pedirei que eles se apressem em sua viagem, e Alquimista planejara o necessário para essa busca; juntos faremos o impossível para alcançar  sucesso, e com isso espero que perdoe nossa falha ao lhe pedir por mais paciência em um assunto tão delicado. - Vênus, o olhava nos olhos, buscando algum sinal de concordância, e quando finalmente o teve, ela deixou a sala sem falar mais nada.

Caos fez menção em chama-la novamente, mas foi puxado por Alquimista, que já não tentava manter as aparências, e caiu de joelhos, segurando o braço, com uma expressão de dor profunda.
- Vocês está bem? O que está acontecendo?  - Caos perguntou atônito ao ver o amigo caído.
- Claro que eu não estou bem... - Alquimista respondeu respirando pesadamente - Você me fez parecer um idiota apaixonado... pra ela... e você ouviu o que ela disse sobre não sermos um casal? - Alquimista brincava, mas sentia muita dor, deixando Caos ainda mais sem reação.
- Pare de brincadeiras. O que eu devo fazer?
- Eu te odeio tanto seu... - alquimista não conseguiu concluir, sua dor aumentou, e ele precisou de toda sua concentração para manter a consciência.

 Apos alguns segundos, ele conseguiu falar pausadamente, e pediu que Caos buscasse para ele a caixa  em que ele guardava seus cristais.
 Rapidamente, Caos estava de volta apos revirar os aposentos do amigo, e trazia consigo uma caixa pequena, mas muito ornamentada, e com uma tranca pouco comum.
Alquimista, pegou o objeto, e recostado na parede próximo a porta, ele destravou a caixa, e revirou seu conteúdo. De um pequeno saco com seu simbolo, a mascara de coruja, bordado, ele retirou duas pedras, uma esverdeada e outra mais escura, segurou uma em cada mão, e se concentrou de olhos fechados.
Caos se afastou um pouco. Percebia que o amigo ainda estava com muitas dores, mas não entendia o que estava acontecendo. Ele lembrou de já ter visto Alquimista se referir a pedra escura como pedra de poder ou força, mas não conseguia se lembrar da função da joia verde.
No braço de alquimista, os símbolos espalhados pela manopla brilharam, e os espaços das pedras brilharam suas respectivas cores. Ele posicionou primeiro a pedra negra, e sussurrou algumas palavras, e logo um pequeno brilho prateado, percorreu seu corpo saindo da pedra. Em seguida ele repetiu o processo com o cristal verde, mas dessa vez o brilho se concentrou em seu braço direito, o braço da manopla, e uma luz verde, brilhou por alguns segundos a mais em seu braço.

Caos observou tudo calado. E quando o amigo finalmente estava em condições, ele indagou sobre o que havia ocorrido.
- Eu... eu estou meio que... envenenado. - Alquimista falou finalmente, levantando-se, mas sem coragem de encarar o amigo.
- Vocês está morrendo? - indagou Caos.
 - Espero que não... estou tentando que não...

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