sábado, 21 de maio de 2016

Mau Agouro

- Olha amor, uma coruja, que bonita!
- Isso é sinal de mau agouro, cuidado... – o jovem foi irônico, repassando seu conhecimento adquirido com o tempo, isso era algo que todos repetiam. Sua namorada não recebeu tão bem o aviso.
- Mas “cuidado” porque? Acho que já ouvi algo sobre dar azar né? – a moça, aparentava real inocência para com o assunto.
- Sempre que aparece uma coruja assim é porque alguém vai morrer nessa área. – Ele quis dar realmente um tom mais assustador ao que dizia. Mas teve como resposta um sorriso e uma exclamação que logo encerrou a conversa:
– Mas sempre alguém morre, de alguma coisa, com ou sem corujas!
Ele a apertou um pouco mais com o braço que envolvia sua cintura, e com um sorriso de confirmação a beijou. Continuaram a caminhada apressando o passo para atravessar a rua.
- Idiotas! – o velho mendigo sentado falou alto, com certa raiva na voz. – Não ligue pra eles minha amiga! – ele olhou pra cima, falando para a coruja, que voava perto da casa da esquina, onde ele ocupava a calçada.
- E o qual o problema no que eles disseram? – a voz vinha da parte não iluminada da rua, e pertencia a um homem de passos lentos que dobrava a esquina e ia se aproximando. 
Um tanto surpreso o mendigo tratou de baixar a cabeça, e olhar apenas com o canto de olho para o homem que estava em pé ao seu lado.
A coruja então emitiu um som, que lembrava um grito desesperado, surpreendendo os dois, e logo voou para longe rapidamente.
- Elas não conseguem evitar. Não é culpa delas! Eu acho que essa nem sabia direito o que fazer. – o velho começou a levantar, bem devagar, ainda bastante desconfiado. Estava acostumado a ser considerado maluco, não esperava que qualquer um fosse ligar pro que dizia. Mas aquele homem, agora estendia a mão para ajuda-lo, aquilo era estranho. Era comum ser taxado como um louco qualquer, mas porque aquele homem estava ali fazendo perguntas, e porque dar atenção a ele?
- Você está falando das corujas não é? – o homem perguntou com um leve sorriso, instigando o velho senhor a contar mais.
- Quem é você? – por mais que o velho estivesse desconfiado, ele tinha vontade de começar uma conversa. Ele se apoiava nas grades de ferro do muro da casa, se encolhia, mas tinha vontade de continuar falando para um ouvinte, afinal o que teria demais em contar o que sabia? pensou por alguns instantes enquanto aguardava a resposta do homem.
- Sou só um curioso. Eu realmente achei interessante o que o senhor disse. Eu nunca achei esses pássaros algo ruim, mas muitas pessoas pensam o contrário, algumas tem medo, outras uma admiração. Mas o senhor está tendo compaixão... – Ele usou as palavras sabiamente, sempre com certo sorriso no rosto, mesmo que ele não fosse tão verdadeiro. Esperava que o velho realmente lhe contasse uma boa história.
- Porque não sentamos ali, naqueles bancos? – o homem convidou o velho, que já desistira de ir embora, e assumia uma postura ainda desconfiada, porém condescendente.
Os dois atravessaram a rua, e sentaram em um dos bancos da praça. A noite começava a esfriar. Mesmo ainda não passando das 19:00 o movimento era bem pouco naquele momento, apenas um pipoqueiro e seu carrinho ocupavam a pracinha junto a eles. O homem usava uma camisa social com a gravata bem frouxa e carregava no braço seu paletó, e tão logo se sentou tratou também de colocar sua mochila no chão ao seu lado. Nenhum deles eram tão velhos quanto aparentavam, os dois estavam desgastados pela própria vida, mas sob circunstancias evidentemente diferentes.
O velho se sentou e logo relaxou, observando o comportamento de seu novo companheiro que agora lhe parecia só mais um solitário como ele, alguém a procura de ouvir uma história para distrair a mente. Alguém disposto a dar ouvidos até mesmo a um mendigo, possivelmente maluco.
- Mas o senhor ia dizendo? – perguntou o homem de maneira simpática, mas olhando para cima, para o céu que se mostrava sem nuvem alguma e bastante estrelado.
- Todo mundo morre de alguma coisa, é claro e todo mundo sabe disso! – o velho falou como que retomando o assunto a partir da fala da moça. – Mas essas “alguma coisa” são importantes. Tem muitos tipos de morte. Você pode conhecer ela de várias formas, seja por algum acidente, doenças, de maneira natural, por uma injustiça ou até mesmo por justiça... Mas e quando ela vem da loucura? Da dor? E da tristeza?
O homem tratou de olhar o velho, que por sua vez, mirava a casa, do outro lado da rua, enquanto falava de forma compassada. Ele agora estava intrigado com a fala do senhor, com a sua postura sobre o assunto, tudo que era dito tinha sentido e até mesmo uma profundidade que ele não esperava de imediato. O velho havia se transformado, seu tom era outro, até mesmo sua postura tímida tinha sumido. A conversa caminhava para uma direção que ele não esperava de forma alguma. Limitou-se então apenas em confirmar com um aceno de cabeça.
- Eu não sei no que você acredita. – continuou o senhor após alguns segundos esperando que seu interlocutor assimilasse tudo o que era dito - Isso não importa muito agora. Mas você tem que concordar que a vida é importante. A morte é mesmo um fato. Mas não é sempre que ela é inevitável. Existem pessoas que se afundam muito em pensamentos, e em toda a sua própria loucura e tristeza. Ai chega um momento que ficamos sem opções, e por causa da dor, de continuar se debatendo enquanto afunda mais e mais, a morte se apresenta. Mas ela vem apenas porque foi convocada. No fundo ela sempre esteve ali, você sempre viu, ela apenas nunca tinha vindo conversar com você, mas com certeza já havia a conhecido. Não é como se não existissem outras coisas. Essa é questão, você está cansado e com dor, precisa de algo para se curar. Não está longe de ajuda. Qualquer coisa é bem-vinda, você está afundando porque não sabe mais em que direção ir. Se ao menos pudesse receber uma luz, ou ouvir alguma voz que pudesse seguir. Ser guiado para longe da escuridão.
O homem estava completamente envolvido pelas palavras do velho, que vez por outra respirava profundamente e olhava ao redor, enquanto continuava a falar.
- Agora imagine que você sabe de tudo isso,que você conhece essa situação por ter vivido ela, e vê alguém nesse mesmo estado. O que fazer?
- Oferecer ajuda?
- Qualquer um faria com certeza.
- Mas e a coruja? O que significa? O que o senhor está querendo dizer?
- Como eu disse não importa o que você acredita. Não estou pedindo pra acreditar no que eu vou dizer, mas, existe uma velha história, e não me pergunte de onde ela surgiu, eu só sei que ela é antiga, e já foi passada por muitas gerações. Bem, existiram algumas pobres almas que viveram toda a dor, desespero e loucura que já falamos, e em certo ponto da vida, estavam sem mais qualquer esperança e encontraram na morte uma possível solução para acabar com todo seu sofrimento. Mas quando tomaram então sua última escolha em vida, elas se arrependeram. Dizem que o tempo passa muito devagar quando se está morrendo. O que você faria se desse de frente com um erro sem conserto? Eles fizeram uma última prece, e suplicaram por uma segunda chance. Mas como eu disse, a morte havia sido convocada por eles, não havia mais como mudar isso. Mas aquilo era inédito e por conta disso uma exceção foi aberta. Ela então guiou cada um para um plano fora da existência, e lá foram reunidos e levados para um encontro, onde as forças primordiais da vida e da morte se mostraram, e uma espécie de tribunal foi montado. Outras forças que atuam no mundo foram chamadas, e pediram para que os suicidas explicassem o que havia acontecido. Eles receberam a chance de falar sobre todo o peso que carregavam no coração, e como estavam perdidos quando se viram diante daquela infeliz decisão. Todos tinham em comum em suas histórias o profundo arrependimento, e a suplica por uma chance de ser diferente. Foi explicado a eles que não existia como voltarem ao mundo dos vivos, pelo menos não em seus antigos corpos. E com isso uma condição foi criada. Eles seriam transformados em animais, e com isso poderiam permanecer vivos, e em troca teriam que salvar aqueles que acabassem como eles.
- Transformados então em corujas eles tem que salvar alguém para então se salvar...
- É uma forma de ver. O que dizem é que essas almas transformadas, passaram a viajar pelo mundo. Elas podem sentir e de alguma forma ver o que cada um carrega em sua alma, mesmo aquilo escondido na escuridão dentro de cada um. E quando encontram alguém que está prestes a fazer a escolha, elas vivenciam nelas mesmas o desespero do outro e revivem ainda seu pior momento, a fim de relembrar o pacto. Elas tentam desesperadamente avisar, gritar ao seu jeito, fazer algo para interromper a pobre pessoa. Essa passou a ser sua missão nesse mundo. É isso que as corujas fazem.
- Faz algum sentido. Como o senhor disse, as vezes só buscamos alguma espécie de sinal, algo que possa servir de farol para sair desse estado desesperador...
O homem estava um tanto impressionado pela história contada pelo senhor. Ele refletiu por alguns instantes naquela situação, e no quão relevante tudo aquilo era, e mais ainda para ele. Quem poderia imaginar que algo tão profundo e legal poderia sair daquele daquela situação totalmente incomum.
Ele interrompeu suas reflexões apenas quando ouviu uma sirene muito alta, vinda da ambulância que estacionava em frente à casa onde antes o velho estivera ocupando a calçada. Ficou surpreso quando viu paramédicos descendo e conversando com uma senhora em frente a porta. Eté então ele não tinha notado que havia movimento ali.
- Você tem algum dinheiro para comprar pipoca? – o velho mais uma vez chamava sua atenção.
- Como?
- Eu te contei o que você queria, em agradecimento você podia comprar pipocas.
- Sim claro. Mas eu não gosto muito, compro para o senhor.
Ele levantou e foi comprar, após alguns momentos, entregou ao senhor dois sacos de pipoca. O velho agradeceu e começou a comer. Ao observar as mãos do senhor com mais atenção ele notou que havia uma tatuagem de coruja no pulso dele. Um tanto apagada pelo tempo, mas um detalhe interessante, pensou consigo. Observou mais uma vez a casa, e viu que se aglomeravam algumas pessoas, curiosos, para saber o que havia acontecido. Logo viu uma maca com alguém sendo carregado para fora da casa, e logo atrás a senhora de novo trancando a porta e subindo na ambulância junto dos médicos. O som da sirene ecoou de novo, dessa vez se afastando. As pessoas continuavam em frente à casa. 
Ele decidiu que deveria ir embora para sua casa.
- Como é o seu nome? – perguntou ao velho que se ocupava apenas comendo.
- Todo mundo me chama de Coruja.
- Bem, pois eu agradeço por compartilhar seus pensamentos e a historia Coruja, já vou indo. Muito obrigado, e Boa noite!
Recolheu suas coisas, e com um sorriso ainda, começou a atravessar a rua de volta a esquina, tudo aquilo era mesmo muito curioso. Ao chegar próximo as pessoas, não se conteve e teve que perguntar o que havia acontecido.
- O cara tentou se matar. - teve sua resposta dada por um jovem que talvez não tivesse nem 20 anos.
Ele ainda ouviu os outros completarem as informações, dizendo que a mãe do rapaz que morava na casa sozinho, havia vindo procurar por ele, e o encontrou desacordado no quarto e cheio de sangue nos braços, mas ela ligou para o socorro e ele foi levado com vida para o hospital.
Bastante surpreso o homem desejou boa noite a todos e seguiu seu caminho, refletindo sobre todos os acontecimentos que tinham acontecido com ele durante aquele dia, em especial nos mais recentes. Ele ajeitou então a mochila nas costas e olhou para o céu mais uma vez. Sorriu prazerosamente e falou baixinho:


-Bom trabalho corujas, 2 em uma noite

terça-feira, 10 de maio de 2016

O dia que não lembro

Eu não lembro de quando eu morri. E isso é muito chato, de verdade mesmo. Eu tenho estado bem ruim de memória. Não consigo lembrar de datas e sou péssimo com nomes, mas não acho que morrer tem algo a ver com isso, afinal, muita gente é assim desde sempre. Sem contar que eu só estou morto há uma semana, não acho que isso vá influenciar na minha memória. Eu não sei porque insisto em pensar nisso, quer dizer... eu sei... foi por causa do cara que me assaltou. Engraçado que na hora me veio aquela sensação de “dejavu”, e ao mesmo tempo eu não estava mais ali, eu via tudo de fora, ai ele disse as palavras que retomaram minha atenção:
- bla bla blá, SE NÃO, VAI MORRER, aqui mesmo...
Que irônico, eu tinha quase certeza que não ia morrer mesmo, mas ele tinha uma faca, então dei o “celular do ladrão” pro cara, talvez ele precisasse mais do que eu; esse é um pensamento bem idiota, mas eu estou tentando mudar, também estou tentando desapegar, é aquela velha frase: “caixão não tem gaveta” ... Continuo meu caminho para casa e os pensamentos me inundam.
Não sei o que me incomodou mais, se a ameaça que pareceu vazia, ou a chance de ser um corpo jogado na rua, uma “vítima dos nossos tempos difíceis”, mais um número para preencher a estatística. Isso me faz refletir agora. Muitas pessoas morrem, e muitas morrem de maneira estúpida, por um idiota qualquer. Muitas vezes não tem nada daquela coisa dos “tons de cinza”, o cara não está “tentando sobreviver e aquele é seu último recurso”; não, nem sempre é isso, aquele cara parecia ser totalmente cinza, ele já não se importava com nada. Preferi ceder. Outras alternativas mal faziam sentido. Mas isso não importa. Estou em casa agora. Tirar os sapatos é minha maior preocupação.
Preciso me sentar; caramba... pensar demais sempre me deixa mal.
Eu não queria ficar depressivo, não hoje em especial, afinal estou “não morto” há uma semana, é um novo aniversário a se comemorar, é uma data de recomeços é um novo começo, afinal a vida está só... que droga, fiz de novo, agora vou ficar pensando na morte... Que droga, vou ficar pensando NA MINHA morte. Eu não sei se queria mesmo me lembrar disso...
(Uma semana atrás:)
Dia 1:
Minha casa está escura, sei que é madrugada, um pouco da luz de fora entra em casa. Me levanto do chão com dificuldade, meio que sinto um pouco de dormência no corpo. Meu braço esquerdo tem um corte, eu sinto quando coloco a mão. Estou de joelhos no chão, olho em volta, tento entender o que aconteceu. Me levanto, sento no sofá. Meu computador está ligado. Olho com atenção o que tem na tela: DOWNLOAD CONCLUÍDO - bem poderei assistir mais uma temporada da minha série agora, só preciso arranjar um tempo. Meu lado esquerdo inteiro parece dormente. Coloco a mão em meu peito. Mais abaixo, um corte superficial eu acho, não lembro de nenhuma cicatriz ali antes. Eu respiro fundo, começo a ficar muito nervoso, a luz do monitor ilumina o corte no meu braço, caramba, eu devo ter perdido muito sangue. Que droga não é só um corte... Não lembro do que aconteceu...
Por que eu estava no chão? Caramba eu desmaiei? Eu acho que não posso ver sangue!
Não consigo lembrar direito...
O corte está fechado, meio avermelhado. Não sinto dor, na verdade eu não sinto mesmo nenhuma dor, só um incomodo, será a luz? É um desconforto bem chato. Me levanto, onde está o interruptor? Pronto, “que se faça luz” ...
Mas quanta bagunça. Eu estava mexendo nos meus livros? E todos esses papeis no chão, e mais embalagens... e eu vou ter que limpar. Se bem que até ai é normal, eu apenas não consigo lembrar direito. Olho de novo para o meu braço, Caramba como eu pude fazer isso?
A porta está só encostada, isso é um grande erro! Mas a casa parece o.k. Preciso ir no banheiro. Papel com sangue no lixeiro, e um balde com minha camisa na pia. Um bom sinal, sou alguém organizado mesmo quando estou desmaiando. Tem sangue na pia. Então eu me limpei, troquei a camisa manchada, e só ai fui parar no chão. Legal. Vou deixar essa camisa de molho mesmo.
Preciso me sentar. Isso é muito perigoso, numa dessas eu morro... haha! Eu sorrio pra mim mesmo, estou nervoso comigo mesmo, olho de novo meu braço, preciso de alguma coisa pra cobrir isso.
Mas como “isso” aconteceu? Nenhuma mensagem no celular... isso é bom? Eu devia mandar algo pra alguém né? Será que tem alguém online? É madrugada, melhor deixar pra lá. Faz tempo que não respondo ninguém mesmo.
Não consigo dormir. Enfaixo meu braço com uma camisa qualquer, e vou assistir mais alguma coisa no computador, com sorte pego no sono.
O celular despertou, 06:30 am. Alarme desligado. O lado bom é que maratonei minha série, o ruim é que não prestei muita atenção nesse último episódio, e que legenda errada, dia desses, quando eu tiver tempo, vou me juntar a um desses grupos que fazem legenda pra consertar isso. Todos merecem uma legenda de qualidade... haha, que idiotice...
Me sinto estranho, evito pensar de mais, bem de qualquer forma, acho que já posso responder todo mundo, um bom dia seguido de “emoticons” de gatinhos, eles vão adorar, nem vão reclamar por estar respondendo só agora essas mensagens antigas...
- ATRASADO!
Caramba, como a pessoa ainda reclama, por eu ter respondido?! podia muito bem ter ficado sem falar nunca mais! E se eu não respondi por algum motivo importante? E se eu morresse? Será que alguém ligaria? Chega de pensamentos idiotas. Ainda é muito cedo. Que droga não quero tomar banho, eu não quero olhar essas cicatrizes. Mas elas não estão doendo ainda. Será que eu tomei alguma coisa? Ai meu Deus. E se eu tomei alguma coisa e agora eu ‘tô assim; quando o efeito passar vou ficar uma droga.
Preciso de música.
-Little Talks – Of Monsters and Men. - pronto, é um bom começo!
Termino de me arrumar, ouvindo o refrão. Música boa. Estou pronto pra mais um dia. Eu estou dizendo isso para mim mesmo...
Todo o bom humor do primeiro do começo do dia foi embora as 09:00 da manhã; eu fui ao trabalho. O resto do dia passou praticamente normal. Hospital, Trabalhar, comer, trabalhar, ir para casa. (Normal exceto pela parte do hospital talvez). Eu olho em volta enquanto
caminho para casa, é um entardecer frio. Todo mundo centrado em suas próprias “missões pessoais”, eu sinto que conheço aquela pessoa de algum lugar... eu não enxergo bem, preciso de óculos novos... Onde estão meus óculos? ... Ela não me reconhece, ou talvez não me viu direito. Normal.
Não olho mais o celular quando chego em casa. Preciso me sentar. Gasto apenas dois minutos mudando os canais na TV. Eu me deito, coloco músicas aleatórias. Acabo dormindo.
Dia 2
Acordo de madrugada. Um incomodo novamente. Melhor responder as pessoas no celular. Nossa, nunca vou conseguir acompanhar essas conversas nesses grupos. Não vale a pena. Deixo o celular em cima da cama. Me levanto. Acendo as luzes, mas não sei o que eu estou procurando...
Adoro meus livros. Tento me apegar a esses pensamentos bobos. Meu braço está ardendo. Não! O “corte” no meu braço está ardendo. Lembro da cara da moça no hospital quando ela deu os pontos no meu braço. Ela queria muito saber o que aconteceu de verdade. Mas eu também queria.
Ligo a TV”. Porque eu ainda faço isso?
Volto para a internet. Me entretenha, é quase como uma ordem dada a mim mesmo. 20 minutos, passam voando. 1 hora depois e eu estou aqui, ainda cansado, ainda sem vontade de dormir, ainda “incomodado”, mas posso dizer que me entretive, durante esse tempo.
Preciso fazer alguma coisa... Começo a pensar nas coisas que eu deveria fazer... a que droga, é uma sensação horrível, sinto uma leve falta de ar. Eu deveria ser tão diferente. Como acabei assim? Porque eu não faço nada? Droga. Meu coração bate rápido. Continuo me cobrando. E continuo sentindo esse desconforto. É quase como uma espécie de dor. Mas eu simplesmente não consigo fazer nada. Se continuar assim, vou começar a chorar. Que loucura... Eu não suporto isso!
Me levanto, volto a minha cama, puxo um lençol, mexo no travesseiro, arrasto outro lençol. Porque eu estou dobrando isso? Porque eu estou arrumando minha cama, as 05 horas da manhã?
Agora está tudo mais ou menos arrumado. Relativamente limpo. Bem vou tentar ler. É o que me resta fazer...
Fico feliz por colocar alguma leitura em dia.
Eu ouço o despertador do celular. Me levanto, vou até ele. Desligo. Minha rotina volta a acontecer. Eu quase consigo ignorar meu braço enfaixado. Eu me esforço para isso na verdade. Evito pensar sobre isso. Música, isso sempre ajuda.
- No One Knows – Queens of The Stone Age.
Agora sim, minha cabeça está longe. Eu continuo fazendo tudo quase que de modo automático. Apenas paro para trocar algumas faixas da lista de reprodução. E quando dou por mim, lá estou eu de volta ao meu trabalho. Estou decidido a fazer alguma coisa, a tentar algo. Eu tento cumprir minhas obrigações de forma exemplar. Já é alguma coisa. Chego a quase me sentir melhor. E então meu braço dói um pouco.
O pensamento é algo muito interessante, não existe isso de não pensar em nada. Porque nessa hora, você está pensando em muitas coisas, elas só talvez não façam mesmo muito sentido, pois você fica trocando de pensamentos, e uma coisa que se liga a outra, puxa outra, e de repente eu me vejo pensando em como eu acabei assim, dessa vez não é um pensamento filosófico, eu realmente tento forçar a mente para antes de acordar no chão da minha casa de madrugada. Eu vejo flashes de acontecimentos, cenas se passando rapidamente, mas não sei distinguir se são mesmo reais, muitas delas parecem só repetições. Balanço a cabeça, tentando fugir desse sentimento... Eu estou bem, tenho um trabalho que me ajuda a pagar as coisas das quais preciso; Meus amigos estão bem também, eu vi na internet eu acho, com certeza eu devo ter curtido algumas coisas que eles postaram e pareciam bem.
Saio finalmente desses pensamentos, é hora de ir embora. No transporte eu ouço músicas enquanto observo as pessoas. Um belo videoclipe acabei de elaborar. Quem sabe um dia faça ele de verdade. Eu fico ensaiando sorrisos, lembrando de coisas muito antigas enquanto reparo as ações das pessoas. Hoje está tudo calmo, as maiores confusões são minhas e internas, todos parecem bem, apenas cansados talvez, eu não sou o único em silencio
observando, e isso é bom, eles parecem estar longe, pensando no que vão fazer a seguir. Eu também não tenho mais planos.
Dia 3
E se eu estiver morto?
Eu cheguei a uma conclusão, há muito tempo atrás, de que a morte é a finitude de tudo que existe, ela é o nada, em sua essência, ela é o vazio. Os suicidas quando optam pela morte, buscam de certa forma uma escapatória, pois eles já não conseguem permanecer diante de todos os seus problemas, minha maior questão na época era se eles queriam esse “nada”, para mim o vazio era mais assustador ainda. Maior que o medo de qualquer problema, maior que as consequências que eles trazem, maior que as dúvidas do dia a dia, o vazio é maior e engole tudo, e nada mais existe. Não, o próprio nada em absoluto é o que existe. E isso me assustava.
Eu posso ser considerado uma pessoa errada por estar “julgando”, e simplificando a questão do suicídio. Esse tema é muito pesado. Mas eu não estou fazendo nada que todo mundo já não tenha feito. As pessoas simplificam as consequências dos problemas, levando em conta as perdas que podem acontecer ao enfrenta-los, ou os caminhos que devem ser tomados para contorna-los. É muito estranho, pois o que as pessoas não aceitam é a questão mais simples na verdade, eles não compreendem que alguns de nós, simplesmente não conseguem enfrentar, e as consequências virão Disso. Este é o fato. Não adianta apontar e motivar, ou mesmo mostrar quão bom vai ser para alguém quando ela superar alguma situação, pois o que vai levar ela “aos finalmentes”, é o “simples fato” de que ela não consegue fazer nada, ela possivelmente nem vê sentido em mais nada, e a depressão surge dessa incapacidade, a ansiedade, por outro lado, vem das soluções possíveis, e no fim ao juntar isso tudo numa pessoa só... você terá divagações sobre o “fim”.
São 05:30 am, estou acordado desde as quatro. Fico pensando que eu poderia já estar morto. A morte é o nada, o vazio, e eu estou a muito tempo me preenchendo de toda forma possível com tudo o que eu vejo. Eu tento consumir cada vez mais, mais livros, mais filmes, falar com mais pessoas, assumir mais trabalhos, criar novos objetivos... Eu estou desesperadamente tentando evitar o vazio, pois
ele me assunta mais que qualquer coisa. Mas eu continuo sentindo ele tão próximo.
Me levanto trancando todos esses pensamentos. É hora de “ficar de boa”, chega de todas as bobagens. Logo me apronto para sair e cada, estou horas adiantado, e o clima ainda está frio, perfeito para caminhar.
Não tenho pressa, sorrio para as pessoas por quem passo. É estranho pensar o quão próximo e ao mesmo tempo distante pode se estar de alguém. Estamos ali vivendo na mesma cidade, bairro ou rua, mas não a mesma vida. Isso nunca, de jeito nenhum.
Tenho tempo de parar na padaria, o cheiro de pão é muito sedutor. Impossível não te deixar feliz na hora. Sou interrompido do meu transe com uma voz familiar:
- Ei, há quanto tempo?
- Ei, muito mesmo...
Não consigo reconhecer na hora, mas ela não parece ter dúvidas de quem eu sou. Tento reagir o mais natural possível, nos abraçamos, e falamos amenidades. É tão bom reencontrar alguém dos velhos tempos. “Descubro” que estudamos juntos, e já não nos víamos há pelo menos 5 anos. Nossa, o tempo passa, e nem percebemos. Fico feliz de saber que ela está bem, se casou e tem filhos pequenos. Me parece uma ótima vida.

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Provocação

Estavam deitados de frente um para o outro, a mão dele repousava na cintura dela, ele ensaiava um sorriso, pensando no que falar, ela tinha os olhos meio fechados, com a cabeça mais encolhida em direção a seu peito; com sua mão ele sentiu quando ela iniciou o movimento para virar-se e levantar, ele rapidamente a envolveu mais fortemente, interrompendo a ação dela e mais uma vez mantendo-a em seu abraço:
- Não, ainda não! – ele disse, ainda baixinho e de olhos cerrados.
Ela forçou o movimento mais uma vez e sentou-se na cama, com um movimento levou os cabelos para trás da orelha, sua expressão era uma mistura de seriedade e sorrisos que surgiam em sua face toda vez que ele a tocava, ainda tentando traze-la de volta, para prolongar aquele momento; mas tão logo ela levantou-se de vez, ele percebeu que mais uma vez teria que insistir naquele assunto:
- Mas você está aqui comigo e na minha casa, conheceu todos que fazem parte da minha vida... – dessa vez ele estava sendo mais direto a ponto de não restarem duvidas da sua proposta.
- Eu não posso me relacionar assim de novo, ao menos não colocando títulos nas coisas – ela disse finalmente.
Ele sentava na cama enquanto ela se colocava de pé em sua frente, as mãos mais uma vez a seguravam pela cintura, dessa vez ela não resistiu ao encontro dos corpos; ele fingia morder sua barriga e fazia cocegas nela numa tentativa de diminuir a seriedade daquele momento. Por fim ela sentou em seu colo e beijou-o levemente, e disse que precisava ir embora. Ciente de mais uma derrota, ele decidiu manter as coisas como estavam, já era muito incomum ele ter que insistir em um relacionamento sério, era melhor não insistir em mais nenhuma proposta e apenas aproveitar dos momentos que passava com sua...
A falta de uma definição sobre a relação ainda o incomodava, mas estava decidido a apenas aproveitar os momentos juntos. Após mexer em seu celular e pegar algumas de suas coisas, ela dirigiu-se ao banho, uma ultima olhada na direção da moça fez com que ele confirmasse para si mesmo que toda a situação valia a pena, ela conseguia mantê-lo completamente atraído apenas com o caminhar e vestida com um baby-doll qualquer.
Ela fazia um rabo de cavalo em frente ao espelho, e observou lateralmente que ele a observava, existia um clima de provocação não declarado, ela se virou e sorriu, cruzando os braços falou:
- E Então?
- Então o que? – Respondeu com um leve sorriso enquanto sua mente trabalhava em mil pensamentos e possíveis ações.
- Não vai me dar a toalha? – Ela respondeu com naturalidade, ciente do que despertava nele.
- Quer só a toalha? – Foi sua vez de provocar, com a diferença que suas investidas eram bem mais diretas e provocativas.
- É só o que eu preciso pro banho né?  - Ela gostava daquele jogo.
A tensão sexual entre eles aumentava gradativamente, e quando percebeu que ele se levantava ela preferiu encerrar a brincadeira:
- Aqui já tem uma né?!, pode ir indo tomar café então, daqui a pouco eu saio!
Ele deixou que ela encerrasse sem dizer mais nada, ainda era muito cedo para qualquer coisa, eles já haviam passado a noite juntos, agora ele também iria com mais calma; Ao menos por essa manhã.


sexta-feira, 4 de março de 2016

...Dividir histórias... / Muito obrigado

"O maior presente é poder dividir histórias"...
Já pensou com quantas pessoas você já dividiu boas historias? e as ruins também...
Você pode dividir vivenciando, contanto, reencenando e escrevendo claro. Pode dividir propositalmente ou "meio que sem querer". Sabe aquele esbarrão que você deu em desconhecido, e logo depois pediu desculpa? você pode ter dado uma boa historia á alguém; vai que para aquela pessoa você provou que nem todo mundo é rude e insensato hoje em dia, você foi o motivo de virada na vida de uma pessoa que nem conhece! ou talvez nem tanto assim... mas seria uma boa historia não e mesmo?!
Se você de alguma forma lida com muitas pessoas no seu dia a dia, você deve saber que é um personagem na historia de alguém. E ai? é dos bons ou não? é um vilão? e não precisa ver isso como algo negativo, bem talvez isso não importe muito pra você, mas fica a reflexão! (Eu sei que eu já fui o vilão de cada história...)
Nós somos parte da historia de tanta gente, e pra alguns a parte mais importante, e para outros aquela parte que mais quer ser esquecida...
O escritor divide historias, e elas nem sempre foram vividas por ele, mas são "experienciadas" por tantas...
Serei mais direto agora, existem momentos na vida que nos sentimos "estranhos", tem aquela nostalgia com o que se viveu e tem aquele tipo de "depressão" pelo o que poderia ter acontecido, e ainda a ansiedade pelo o que ainda pode acontecer, são momentos de sentimentos estranhos, pois eles não são sempre ruins, não obrigatoriamente eles nos levarão ao chão, e mesmo que levem talvez não nos mantenham lá por tanto tempo assim. Mas o fato é que todos estes momentos são cercados por historias tão boas, e não boas por serem felizes, mas por terem tanta força.
Você já cansou dessa loucura escrita aqui? tudo bem, tome de volta a primeira frase, ela é tudo o que você mais precisa entender agora, " O maior presente é poder dividir histórias."
Eu pude viver bons momentos até agora, e acho que fiz parte de outros tantos para outras pessoas, que sei que virarão historias tão poderosas. Eu vivi muitas, e mais que isso, pude ouvir tantas outras. Obrigado por dividir as suas. Ouça de vez em quando as minhas, sem compromissos, tudo bem. Vamos só viver mais um pouco elas sim? ...

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

5 minutos de lagrimas

Ele usava toda sua força e concentração para evitar que as lagrimas saíssem de seus olhos, não tinha certeza se os outros notavam esse esforço ou mesmo as lagrimas insistindo em se manifestar. Ele ouvia o que era dito, mas naquele momento ele só conseguia pensar que queria cinco minutos para poder chorar tudo aquilo que pesava em seus ombros, para talvez gritar o ódio em seu peito, para alimentar a raiva que brotava em meio aos outros sentimentos. Apenas 5 minutos, só isso e ele já se daria por satisfeito. Mas o mundo não para por ninguém, o “seu mundo” pode acabar e recomeçar diversas vezes, mas o “mundo real”, esse não vai parar. Não é a primeira vez que este pensamento vem a sua mente, ele vem e fica repetindo: - Esse não sou eu, não é como eu sou... Mas eu só queria parar, só queria que dessa vez houvesse alguém lá por mim.
Aquilo é verdade, ele não está habituado a ser ele quem está “quebrado”; ele é quem faz os outros rirem, ele é quem dá o espaço, os ouvidos e a piada boba ao fim de uma história triste, para mostrar que sorrir ainda é possível mesmo depois de péssimos momentos. Ele sabe disso, e fica repetindo para si, é disso que ele precisa, ele precisa ter certeza disso. Não demora, para que tudo isso acabe, a moça ao seu lado insiste em conversar, em não deixar pedra sobre pedra, isso é muito bom, ele consegue reconhecer, e isso já é bem mais do que ele esperava. Ele não tem certeza se ela viu as lagrimas, ou se conseguiu ser rápido o suficiente em disfarça-las; provavelmente ela apenas as tenha ignorado, para não forçar nenhuma situação ou mesmo piorar aquele momento que já não era dos melhores. Eles conversam, e logo ele está fazendo o que lhe é mais automático, ele faz de tudo para lhe roubar sorrisos, e com isso sinalizar que está tudo bem, que eles estão bem, que ainda serão amigos por mais dezenas de anos, e sentarão juntos por mais outras dezenas de viagens e sempre que necessário.
É isso que ele faz, ele decide desabafar com ela, mas é mais difícil do que imaginava, é assim que ele é, ele se sente mal de vez em quando, e na maior parte do tempo, pensava que conseguia ignorar, disfarçar, ser alguém melhor enquanto estivesse com aqueles malucos que gostava de chamar de amigos. Mas algumas vezes a “dor” era maior que ele próprio, e ele se sentia muito mal. As palavras de seu outro amigo, o fizeram ver que aquele era um dos dias em que ele não conseguia disfarçar, seu semblante hora aéreo e hora muito sério, denunciavam com bastante clareza que não era seu melhor dia. Logo que notou em si esse comportamento, seu lado mais cômico foi solicitado a se fazer presente, e após uns breves momentos fazendo seu melhor, sendo divertido e dando espaço que os outros fizessem suas próprias graças, a tristeza o venceu mais uma vez, e esse foi o golpe definitivo; uma voz conhecida foi quem decretou o quanto ele não estava bem:  – Porque você está assim hoje?
É uma ótima pergunta, ele pensa consigo, tentando se abster de responder, são muitas dores, e elas não poderiam ser relatadas ali, principalmente não naquele espaço; logo apenas respondeu com seu melhor sorriso de olhos fechados, (que é quando ele sorri a ponto de fechar um pouco os olhos), mesmo fazendo isso apenas quando está nervoso ou quando não sabe bem como responder ele espera que tenha sido “natural” o suficiente. Apenas dois minutos o separam da conversa que terá com a moça que o indaga sobre o que aconteceu e se ele poderia desculpá-la por qualquer coisa que ela tenha feito, e logo ele se verá desejando apenas 5 minutos, para se preparar melhor e ver aquilo tudo passar.

O dia seguirá seu rumo, sua rotina, mas esse acontecimento ainda ecoará na cabeça dele, sua visão de si mesmo ganhará novas cores, quem sabe conseguirá resolver-se melhor com seus demônios internos, com alguma sorte seguirá mais feliz sabendo que seus amigos querem ouvi-lo também, e ele continuará seguindo, com seu mundinho sendo abalado de tempos em tempos, mas com ao menos alguns sorrisos compartilhados para ajudar a se refazer das quedas.

A garota

Talvez seu coração já esteja carregado demais para se permitir ser diferente, talvez ela apenas tenha se machucado, o que explicaria facilmente sua agressividade em momentos aparentemente banais, eu poderia dizer que entendo, mas isso não significaria muito; faz todo sentido para mim, mas eu estou apenas achando isso tudo, não lembro se ela já me respondeu isso de alguma forma. Me concentro mais um pouco nela, ironicamente eu não consigo ter muitas certezas a seu respeito, e isso me deixa tão “feliz” (mais uma palavra que não tenho certeza se deveria usar), a vejo bem menos hoje em dia, e algo sempre me diz que ela tem muita coisa guardada, essas pequenas “raivas” que mencionei, não chegam sozinhas, é como se os olhos dos outros estivessem sempre em seu encalço, e isso sim me incomoda. Não há nada que eu possa fazer. Ela se sente julgada, e talvez até seja mesmo; como se já tivesse recebido apontamentos, e olhares impiedosos, e mais uma vez me vejo impassível, pois tudo isso eu sinto e deduzo pela forma que ela fala, e pelo o que ela deixa entender com fragmentos de histórias. Mas ela é forte, durona, quase agressiva, como se revidasse, ou acumulasse até revidar tudo, no seu próprio dia de fúria.
Eu gosto quando ela sorri, mas principalmente por não saber descrever direito seu sorriso, e por desconfiar que ao longo do tempo que a conheço, ele tenha aparecido menos vezes do que eu gostaria, e ainda mesmo com todo meu esforço, eu tenha o causado pouquíssimas vezes; talvez ela possa ver isso como um defeito em mim, eu estou sempre tentando algo, tentando faze-la sorrir, tentando dizer-lhe que ela é especial, tentando agradece-la, tentando evita-la, sempre tentando... Mas isso não é sobre mim, é sobre essa garota que é... ainda não sei se consigo descreve-la totalmente.
Ela fala de si na 3ª (terceira) pessoa, e isso é muito interessante, e bem divertido, não tem como esquecer disso nela. Imagino mais uma vez como descreve-la, para fazer esse relato mais relevante, mas talvez tudo tenha ficado fora da ordem certa, se existir alguma. Ela trabalha e estuda; ela trabalha demais, e estuda mais ainda. Meu “estilo” talvez não combine em nada com ela, mas eu não consigo evitar de me aproximar dela quando tenho a chance, a sua seriedade me incomoda, ela chega a ser acida em seus comentários, suas críticas, mas não é como se me incomodasse de um jeito tão ruim, apenas me incomoda quando não tenho mais o que falar além de momentos num futuro, aqueles planos que você faz, mas que dificilmente vão sair do “vamos marcar” ...
Percebo agora, com um pouco de culpa, que não conheço ela o suficiente, e talvez, eu tenha usado talvez’ de mais nesse relato, que deveria ser uma descrição. Se ela é bonita? Sim claro que é, eu a acho sim muito bonita; mas não é disso que se trata isso tudo. Ela é inteligente, esforçada, dedicada, responsável, sincera, honesta, (o que parecem ser a mesma coisa mas não são exatamente, ou eu penso que não). Ela é gentil, determinada, e chata também, (mas isso porque como que já disse temos estilos diferentes, e é impossível acharmos todos legais todo o tempo).
Eis uma última descrição para que isso não fique tão superficial o quanto eu tenho medo que tenha ficado.
“Ela caminha em direção ao ponto de encontro rotineiro, ela está sozinha, mas nem todo o trajeto foi assim, disso eu sei; Ela tem passos firmes. Talvez por ainda ser muito cedo, ela não esboce qualquer sentimento, uma seriedade comum domina seu rosto, mais uma vez penso ser por conta do horário, a não ser que ela tenha alguma prova, isso costuma tirar todos de sua zona de conforto, nos tornando mais rígidos do que seriamos. Logo o ônibus que nos levará chega, não prestei atenção se ela conversava ou não com alguém, isso me daria alguma ideia sobre seu humor, mas não importa agora, estamos dentro do veículo, e a rotina segue igual a qualquer dia. Penso no quanto ela deve estar cansada, mesmo sendo apenas o início da semana, ela dorme boa parte do trajeto, hoje é um dos dias que ela não pretende se manifestar sobre nada; logo chegamos ao destino comum a todos nós, cada um segue seu caminho, só a verei de novo depois de algumas horas, e já posso adiantar que não conversaremos muito neste próximo encontro, e não existe motivo para isso, apenas acho que não haverá do que falarmos, e isso não é necessariamente ruim, é apenas assim que as coisas acontecem. As horas se passaram, agora estamos no caminho de volta, ela sorri um pouco, trocando piadas com os outros, isso é bom. Logo ela se senta, hoje percebo quase que é quase como uma fórmula que ela segue, após trocar as palavras com alguns amigos, ela se cala, observa um pouco as conversas a sua volta, e depois se volta para a janela; é impossível saber o que se passa em sua mente, e eu não ousaria perturbá-la com isso, não existe motivo, prefiro que ela descanse pelos próximos minutos, imagino que ainda existem muitas coisas para acontecerem em seu dia, e esse foi só o começo do dia, o começo da semana, e ironicamente o começo do mês. Eu mais uma vez me despeço, com a sensação de que, mesmo com apenas 2 horas dividindo o mesmo espaço, eu a conheço um pouquinho mais, e isso é bom. Quem sabe eu logo consiga descreve-la de forma melhor, quem sabe o que ainda pode acontecer?!”.


sexta-feira, 12 de junho de 2015

Apenas fale comigo - (Depois de um sonho)

- Não, não quero mais falar com você – Ela estava ficando com raiva, mas existia uma tristeza em sua fala como se em algum momento ela fosse desabar e começar a chorar.
- Eu preciso que você me escute ao menos isso. – Ele se aproximava devagar, sabia que não podia deixar para depois, aquele era o momento de colocar tudo para fora e resolver a situação.
-Não, eu não quero... – ela respondia com menos força do que das primeiras vezes.
Ela encostou na parede com a lateral de seu corpo, escondendo o rosto, seu cabelo caia um pouco sobre seu rosto, seus olhos tinham uma mistura muito perigosa de raiva e dor.
Ele se aproximou e com sua mão tentou puxa-la para mais perto, ela se recusa e ele se contentou com apenas deixa-la de frente a ele, ela não o olhava apenas alterna entre alguns “não’s” e se desvencilhava sempre que ele tentava tocar seu rosto ou sua mão.
Tudo aquilo já era demais, não adiantava mais fingir que nada tinha acontecido, ou que não era o momento certo para terem uma conversa, e por mais errado que fosse aquele momento, ainda precisava acontecer, ou ao menos era o que ele ficava repetindo para si mesmo.
Ele então parou, deu um passo para trás, e deu um pouco de espaço para ela, que com essa ação, se endireitou e o olhou, seus olhos um tanto vermelhos, suas mãos segurando os próprios braços, como se tentasse se fechar para toda aquela situação.
Depois de alguns segundos se olhando, ele respirou fundo mais uma vez e começou a falar:
- Olha eu sei o que passa pela sua cabeça, eu sei o que você sente, eu só quero que você seja sincera comigo.
Mais uma vez ela baixou seu olhar, e em resposta ele levemente tocou seu rosto, agora coberto por mechas de cabelo, ele a olhou novamente nos olhos e decidiu continuar.
- Você ama ele... tudo bem, mas apenas me diga... eu sei de tudo o que aconteceu... ele é importante para você? – suas mãos tiravam os fios que ainda restavam sobre a face dela, e logo uma mão estava sobre o braço dela, e a outra insistia em tocar-lhe o rosto, era como se ele precisasse senti-la, ter qualquer confirmação de que aquilo estava acontecendo de que ela o estava ouvindo.
- Mais que droga, eu gosto de você, e eu percebi que não estamos em sintonia... para você é diferente... eu apenas preciso que você fale comigo...
- Porque você fica dizendo isso?  - ela finalmente falou, mas sua voz ia começando a sair com dificuldade, a qualquer momento ela podia começar a chorar.  – Você fica colando essas palavras, como se eu tivesse dito... e como se...
Ela apenas a olhava, com um pouco de surpresa.
-Eu nunca disse nada disso, e eu não quero dizer, eu não preciso dizer nada disso – ela continuava como se tivesse tomado folego para dizer apenas essas palavras, e as próximas vieram num tom mais baixo.
- Eu amo você – Ela falou, e uma lagrima desceu por seu rosto. – eu te amo...
- Mas eu.... – ele realmente pensou em iniciar sua fala novamente, mas apenas falou – Eu te amo muito, é sério, eu realmente preciso de você, eu quero significar mais, quero ser importante para você, quero estar com você... eu apenas te amo.
Seus olhares carregavam um tipo de culpa, ansiedade e confusão. Era assim que suas mentes estavam; uma mistura de emoções e sentimentos e muitos deles tão contrastantes, a raiva que ela sentia por ter evitado aquilo até aquele momento, e raiva dele por ter insistido tanto em ter aquela conversa, mas estava tão feliz por conseguir responder claramente e sem dúvidas em seu coração.
Apenas mais algumas palavras foram ditas, mas dessa vez ao mesmo tempo e com a respiração descompassada:
- Eu te amo – Os dois se olhavam enquanto as palavras eram desenhadas por seus lábios.
Ele tomou a iniciativa, sua mão descia pela nuca dela, e a outra envolvia sua cintura, enquanto as duas bocas seguiam buscando uma a outra, numa beijo que tinha tanta paixão, que parecia que eles haviam esperado uma vida para consumar aquele ato.

De longe, eles eram apenas mais um casal, ela com os braços em volta do pescoço dele, e ele a segurando pela cintura, intercalando beijos, sorrisos e olhares, que finalmente só transmitiam alegria, mesmo com as lagrimas que insistiam em percorres suas faces.

Bruno P. Trajano

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Sobre Ironias e Arrependimentos

Quanta ironia pode existir na vida?
E principalmente na morte?
Claro, pois uma esta na outra,
E ninguém nega a sua existência, apenas a mascara,
Evitam-se assuntos e escondem-se lembranças ligadas a ela.
Mas não há nada de errado,
 Apenas também não há nada certo,
E até isso é uma ironia.
E o grande ponto na sua reflexão,
É que eu sempre a evitei.
E mesmo nos momentos ruins,
Imaginei que eles ainda piorariam.
As aguas são turbulentas quando se está no meio da correnteza,
Mas  deixar ser carregado não é uma opção.
Sempre tentarão nadar na direção contraria,
E ninguém dirá que está errado,
Pois eles estarão sendo levados por ela
E quando finalmente chegarem ao fim,
No seu lugar de calmaria...
 ...ainda terão arrependimentos:
 - Talvez eu pudesse ter nadado um pouco mais.



Bruno P. Trajano